Anteontem seria aniversário de 59 anos do meu pai, e eu não o vejo há 20, ele faleceu em 1990. O tempo passou depressa, mas eu senti cada ano, cada aniversário, cada Natal. Cada data eu senti sua ausência, medida pelo abraço que não nos demos.
A tristeza vai amenizando com o tempo, mas a saudade fica. Cada coisa que acontece na minha vida tento advinhar qual seria a reação dele.
Meu pai era uma pessoa muito alegre, adorava festa e estava sempre cercado pela familia e pelos amigos. Viajamos muito, comemoramos em grande estilo todos os aniversários e datas especiais, e lembro bem de como ele e a minha mãe tinham um casamento feliz. Eles não se chamavam pelo nome, se chamavam de "Amor". Lembro um dia que me perguntaram o nome da minha mãe na escola, eu respondi "Amor".
Ele era muito presente na vida dos filhos, ele era engenheiro e tinha uma firma (Chamada Ville: Vinicius + Danielle, obviamente isso aconteceu antes do Diego nascer). Por isso tinha certa flexibilidade de horários, e fazia questão de sempre nos levar e nos buscar na escola. Quando a empregada faltava era uma festa, a gente ia jantar fora.
Quando eu lembro da minha infância, ele é uma das memórias mais fortes. Seja na nossa casa de praia, seja na Disney ou no Playcenter. Sempre com um sorriso, sempre celebrando, sempre me chamando: Daninhaaaaaa! E a cada apresentação do ballet que ele filmava, e não podia bater palmas porque segurava a câmera, também gritava: Daninhaaaa! E me levava cada buquê de rosas que eu mal era capaz de segurar!
Era meu maior fã no ballet, era ele quem assistia às minhas aulas! Minha mãe raramente ia à escola de dança, ela ficava com os meninos, que eram menores. E quando a primeira escola, na Tijuca, ficou "pequena" aos olhos dele, ele tratou de escolher uma melhor pra pequena bailarina. E lá iamos nós três vezes por semana para a Dalal Achcar, na Gávea. Cedinho de manhã, tocava Elton John no rádio do carro (Cold cold heart... And it's not sacrifice...) e eu tentava imitar com o que aprendia nas aulas de inglês. Iamos rindo, sempre!
Depois, me colocou pra fazer um curso de férias na escola de dança do Municipal. Fui selecionada e entrei pro corpo de baile, com onze anos. Foi um dos maiores orgulhos dele. Ele me viu uma vez no palco do Municipal, dancei "O Quebra Nozes", ele chorou o espetáculo inteiro. Ele sempre me disse que um dia eu dançaria no Municipal, eu dancei... e ele viu! Uma única vez, mas ele viu.
Eu podia escolher dançar tudo: Jazz, sapateado, afro, mas o acordo era nunca deixar o ballet.
Outra grande alegria, mas essa não compartilhada, foi quando entrei pro Pedro II, a primeira vez que botei o uniforme todo mundo chorava. Ele foi aluno e levava isso como um dos grandes orgulhos, o mesmo orgulho que eu carrego e só quem é ex aluno entende.
Ele mostrou a mim e aos meus irmãos, dentre tantas coisas, o que é torcer pelo Flamengo. Não simplesmente impôs o amor ao clube, ele nos ensinou a ser flamenguista! Não perdia um jogo, era alucinado pelo Zico! Me lembro bem pequena brincando entre as cadeiras do Maracanã, e a minha filha repete esse cena! Ah se ele pudesse ter vivido isso...
Por tudo isso que ele representou na minha vida, tudo que ele escolheu pra mim e por mim, sinto tanto a sua falta. A saudade é sentida no dia a dia, pelas coisas que não vivemos: Minha adolescência, minha festa de quinze anos, minha entrada na vida adulta, a escolha da faculdade, ter me conduzido no meu casamento, o nascimento dos meus filhos e tudo que veio depois.
Mas ao invés de pensar em saudade que não passa, vou escolher ficar com o amor que permanece. Dói menos...
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